O passar das semanas tem trazido boas notícias quanto a redução do número de internações e mortes por COVID-19 nas capitais brasileiras, que está pouco a pouco permanecendo controlada. Celebramos a vacinação que avança em todos os estados e os parentes e amigos que se recuperam da doença. No entanto, entre os milhares de curados, uma parcela enfrenta as consequências de uma forma persistente da doença: a síndrome pós-covid. Segundo relatos, os sintomas são fadiga, falta de ar, confusão mental, febre, ansiedade, depressão, desatenção e desarranjos intestinais. Países europeus que têm índices controlados da transmissão há mais tempo, enfrentam essa síndrome e afirmam que entre os pacientes que não precisaram ser internados, 14% tem sintomas que persistem por mais de 12 semanas após a detecção da infecção.

PERDA DE OLFATO

Uma das consequências que está preocupando pacientes em recuperação é a perda de olfato, que foi muito comum entre as pessoas infectadas. Quando momentânea, como acontece no caso de um resfriado, a perda não traz tanto desconforto, mas persistindo por até meses torna-se um incomodo muito sério. A perda do olfato pode afetar profundamente o bem-estar de uma pessoa, levando até a depressão. “Há algo fundamental que eu gostaria que as pessoas entendessem. Perder o olfato é um duro golpe para o seu bem-estar. Afeta todos os aspectos da sua vida. Você sente como se tivesse perdido o sentido de quem você era”, comenta Chrissi Kelly, uma americana que perdeu o olfato devido a uma infecção viral em 2012 e hoje criou uma plataforma para ajudar pessoas com essa condição.

O site chama-se AbScent e propõe uma terapia, que embora já fosse oferecida antes de COVID-19, está ganhando popularidade devido à pandemia. A terapia é um “treinamento olfativo“, uma série de exercícios para restaurar a percepção dos cheiros e, no caso de muitas pessoas, devolver normalidade a suas vidas. Veja mais abaixo.

A perda de olfato que atinge alguns pacientes de COVID-19 pode persistir por ao menos um ano após o diagnóstico, mostra um acompanhamento clínico feito ao longo de 12 meses com um grupo de pessoas diagnosticadas com anosmia (perda de olfato) ou hiposmia (redução ou comprometimento).

O artigo, já revisado por pares e publicado na rede aberta do Jama (Jornal da Associação Médica Americana), é de pesquisadores das universidades de Estrasburgo (França) e McGill (de Montreal, Canadá).

O grupo avaliado começou com 97 pacientes que tiveram perda aguda do olfato por mais de 7 dias. Após 12 meses, ao menos duas pessoas ainda não haviam recuperado a função olfativa normal em testes objetivos, e outros 14 relatavam recuperação apenas parcial em questionários subjetivos, informou reportagem do jornal Folha de São Paulo, em 30 de junho.

ANOSMIA x HIPOSMIA

As classificações para a perda do olfato chamam de anosmia quando não se percebe o cheiro e hiposmia, quando a percepção é parcial.

Mas às vezes o mais limitante ainda é a chamada parosmia, os cheiros distorcidos, quando um café tem um cheiro diferente para você do que você lembrava, muitas vezes de algo desagradáve. E dentro da parosmia existe até a fantosmia, que é sentir um cheiro que não existe, mas que você percebe.

Explica Patricia Portillo Mazal, otorrinolaringologista e especialista em olfato e paladar do Hospital Italiano de Buenos Aires.

Uma das grandes questões em torno do novo coronavírus é por que alguns pacientes recuperam o olfato em menos de duas semanas, enquanto outros perdem a função por meses. Segundo especialistas pode ser que em algumas pessoas as células da gliais morrem, e os restos dessas células causam inflamação que afeta os neurônios receptores. Mas quando a inflamação aguda diminui, os neurônios ainda funcionam. Em outras pessoas, por outro lado, a inflamação é tão forte que também mata os neurônios receptores olfativos, tornando a recuperação muito mais longa e difícil. Na fase aguda da perda do olfato, sugeriu-se que o uso de corticosteroide por via oral poderia melhorar a recuperação, mas o nível de evidência para o benefício do tratamento médico de longo prazo é baixo.

Nesse quadro, a reabilitação olfativa – ou “treinamento olfativo”– é uma técnica comprovada de recuperar a capacidade de sentir os odores. A técnica consiste em fazer o paciente cheirar frascos não identificados com alguns odores diferentes, como limão, canela ou eucalipto, durante dez segundos, concentrando a mente para tentar senti-los.

Depois a pessoa pode verificar embaixo do frasco se o aroma corresponde ao que sentiu e repetir a rodada outras vezes durante o dia. Como na fisioterapia, esse tratamento procura refazer o circuito de informações entre o órgão e o cérebro. Com o tempo, o paciente começa a sentir o aroma com mais força e com o frasco a distâncias maiores. Uma das chaves que explicam a eficácia da reabilitação é que o sistema olfativo tem uma capacidade extraordinária de regeneração. As células basais produzem novos neurônios receptores olfativos ao longo de nossas vidas. Ao estimulá-las repetidamente com a exposição a odores, estamos tentando dizer a elas para “acordarem”.

A plataforma AbScent foi criada para que pessoas buscassem ajuda sobre a perda do olfato, compartilhassem experiências e dessem força umas para as outras. O site vende o kit com óleos essenciais para a realização do treinamento olfativo, mas é possível fazer em casa com óleos de cravo, limão, eucalipto e rosa. As essências são pingadas em papel aquarela e deixadas nos potes. Também pode treinar com café, amaciante, chocolate e orégano. O importante é todos os dias realizar o treinamento, forçar a memória a buscar que lembranças aqueles materiais trazem, insistir por meses. Não desistir nas primeiras semanas.

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